Ando sozinho em rua acompanhada. Ela tem a amizade de mendigos, prostitutas, ladrões, drogados, todo tipo de gente que me mandaram não ter como companhia. Talvez o motivo da minha solidão. Impera um grande vazio mental, onde meu corpo se confunde com as pedras da calçada, ambos iluminados por um poste farto de cartazes de jogo búzios, faço massagens e criança com problema de saúde procura cachorro perdido. Enquanto um mau-contato faz a luz alaranjada piscar em intervalos descontínuos, continuo pensando em nada ou não pensando, ou nada.
Paro esquecido em esquina esquecida. Vejo um carro com farol queimado aproximando-se lentamente. Tudo ali parece estar se deteriorando: luminária do poste, farol do carro, minhas sinapses neurais. A calçada, o asfalto e a razão vão perdendo a iluminação. Todos cobertos de betume, cheirando urina de gato, alisados por fina camada de água do chuvisco impertinente. Tintinar obeso de gotículas frias que de tão teimosas já encharcaram meu tênis que, exultante, viu-se livre de lembranças intestinais de algum animal (humano ou não) transeunte antigo da mesma displicente rua.
Estou sob a égide soberba de um céu preto com linhas esfumaçadas cinzas. Poluição ou o cantarolar dançantes do meu cigarro que jaz ora entre meus dedos, ora entre meus lábios, ora entre meus brônquios? Aquelas linhas não poderiam ser nuvens, isto é certo. Lembro-me delas no céu azul da minha infância provinciana. Definitivamente não eram elas. Eu as reconheceria mesmo se pregadas naquele ébano eterno. Não eram... Estrelas também não há. Contaram-me que as que vemos são brilhos já velhos, talvez de astros inexistentes; uma experiência fotográfico-religiosa da qual não usufrui, avultando minha angústia e meu desespero. Se pudesse pensar, veria brilho, viriam brilhos, mas não era hora de estrela, por isto estremeci.
O carro com farol quebrado passou. A luz do poste finalmente decidiu o que fazer e abraçou o breu, apagando-se. As linhas do céu não eram do cigarro porque ele resolveu por bem prestar solidariedade à luminária do poste e, mancomunado com algumas gotas d´água, apagou-se. Nada mais tinha luz. Nada mais a representava. Apagaram-se todos. Apagados em protesto como um clamor silencioso para que outra fonte se voluntariasse a fazer as vezes de luminosa. Invocaram minhas entranhas encefálicas com rituais escuros, porém não obscuros.
Ouvi o brado retumbante daquela natureza morta – que matei, que matamos – cavando, em ato heróico, a própria sepultura e estapeando minhas várias faces: levanta-te, menino! Ressurgi, então, parido de ventre de concreto, vertendo sangue com gosto de conhaque barato e conversei com a Rua! Aquela Rua de tantos amigos, onde flanei, era agora minha amiga, minha mãe, meu berço e eu a iluminava. Ela me dava palavras, muitas palavras, que em nossos diálogos infinitos surgiam vivas alimentando minha luz em simbiose perfeita, verdadeiras orgias de essências.
Ainda não sei aonde levará minha Rua, se ela tem fim e se continuará sendo minha, mas nela meu mundo se perfaz, porque lá vivo os verbos, conheço os sujeitos e topo com todos os predicados. Foi lá que a natureza morta da minha tão viva Rua cantou em uníssono ao meu imundo ouvido: haja luz! E houve luz: pensei e vivi.