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terça-feira, 27 de novembro de 2007

Esotérico ou Exotérico?


Há não muito tempo atrás, um senhor senil, experimentado pelo tempo, escreveu um texto que me fez pensar nessa vida maluca por um bom tempo. Esse senhor nasceu em Portugal, na aldeia ribatejana de Azinhaga, para ser mais preciso. Foi serralheiro mecânico, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor, jornalista e finalmente, escritor. Um vencedor na vida, desses que dariam orgulho aos americanos. Desses que poderiam ser interpretados por algum Will Smith em mais um "The pursuit of Happiness" qualquer. Polêmico, seus escritos e dizeres já foram excomungados, criticados de todas as maneiras, por bons e maus críticos, e até mesmo acusados de serem anti-semitas.

Um outro senhor, bem menos senil, anda também me intrigando. Como muitos líderes políticos, vem desafiando os grandes poderes das potências mundiais. Um louco? Um nacionalista? Um visionário? Um eleito por Deus? Quem sabe. O que é fato, e é a isto que nos ateremos, é que este senhor nasceu na cidade de Garmsar e era filho de um ferreiro. Cresceu, estudou, passou na universidade, diplomou-se engenheiro. Fez doutorado, foi espíão no iraque, oficial do exército, governador e, enfim, presidente de uma nação. Um vencedor, senhoras e senhores. Muito embora não seja o tipo de vencedor que ganhe filme em hollywood. Suas palavras, igualmente polêmicas, são acusadas de anti-democráticas, ditatoriais, anti-diplomáticas, preconceituosas e tudo mais de ruim que um ouvido entendedor de pejorativos pode escutar.



Descobriram quem são as figuras? Sim, estamos falando do mau velhinho José Saramago e do mau presidente da república anti-democrática (foi americano que pôs isso aqui) do Irã Mahmoud Ahmadinejad (sim, este é o nome do sujeito). “E que tem a ver o orifício anal com as ceroulas?” deve o leitor perguntar. E mais, “que tem tudo isso a ver com o tema, seu cretino?” O cretino aqui responde: tudo!

Antes da gente embarcar nessa viagem super bacana, vamos organizar os cus e as calças e ver se tem algo a ver ou não. Abrindo a sacrossanta wikipedia, veremos que segundo uma tia com cara de louca chamada Helena Blavatsky, criadora da moderna Teosofia, o termo "esotérico" refere-se ao que está "dentro", em oposição ao que está "fora" e que é designado como "exotérico". Assim, caro leitor, seu cocô é esotérico dentro de você e exotérico depois de terminada a obra. Designa o significado verdadeiro da doutrina, sua essência, em oposição ao exotérico que é a "vestimenta" da doutrina, sua "decoração". No exemplo do cocô, o termo decoração não se encaixa muito bem, a menos que você adore obrar e deixar lá pra todo mundo ver (e nesse caso, nunca me chame pra ir pra sua casa não!). Platão, aquele pateta que todo mundo cita pra falar da origem de tudo que não se sabe donde veio,
no seu diálogo Alcibíades (Alcibíades que, aliás, era chegadão no lance do eso-exo, e diz Platão, fofoqueiro que só ele, que o dito cujo queria testar a habilidade eso-exo ou exo-eso do Sócrates, mas essa fofoca fika pra outro dia). O fato é que Platão utiliza a expressão ta esô no sentido de “as coisas interiores”, e no diálogo Teeteto utiliza ta eksô com o significado de “as coisas exteriores”. Ta aí, cretinice que me lê, dois argumentos de autoridade pra ninguém dizer que eu to viajando na maionese.


O texto do velhinho indecente que descreve minuciosamente cenas de mulheres violentadas em bacanais nos seus livros (imagine seu avô escrevendo coisa assim! Ele também seria excomungado!) e me fez pensar não contém sacanagem (uma pena!). Estou falando de um pequeno texto, menor que esse post e muito melhor escrito, intitulado “O fator Deus”. Saramago é conhecido por ser um ateu nada esperançoso quanto aos rumos da humanidade. Nesse texto, ele deixa isso claro. Tece o velhinho uma crítica ao fundamentalismo que é concisa, mas dilacerante.


Esse texto é uma referência entre os céticos, esses paladinos da verdade, contra os religiosos, não apenas os islâmicos como nosso caro amigo doidão lá do Irã, citado aí em cima, mas religiosos em geral. Aqui nós começamos a delinear as coisas. É desse “fator Deus” que se retira um poderoso argumento contra o Suposto, O Truta dos trutas, Aquele Lá Mesmo, ou simplesmente, Ele. Como pode a Todo-Bonzão lá de cima deixar os cretinos aqui de baixo matarem e morrerem em seu nome? Se Ele permite, é porque não é a suprema bondade, se não permite, então não é todo poderoso. Nos dois casos, não pode ser Deus, pelo menos segundo as concepções religiosas mais populares no mundo. Sacou o brilhante raciocínio? Pois contenha-se! Não é hora de queimar igrejas, espancar testemunhas de Jeová nem de atirar para fora dos trens os crentes cantantes de todas as manhãs. Um raciocínio falha quando elege premissas erradas. E esse é exatamente o caso. Saramago deve se revirar no caixão toda vez que um cético usa o texto dele para falar uma asneira desse tipo. Ops...Saramago ainda está vivo! Uma criança de 85 aninhos!

Antes da premissa errada, convém analisar o outro lado da briga. Lá, nós temos os religiosos. Escolhi o presidente do Irã, mas podia muito bem ter sido o Papa, ou o Bush, algum fundamentalista budista, um daqueles religiosos africanos que mutilam mulheres, ou qualquer outro dono de Verdade. O mundo está apinhado deles. Mas quem está em voga é o Mahmoud mesmo. Em nome do ibope, usa-lo-ei como exemplo. Este senhor que diz que no Irã não tem gay! Alcibíades não entra em país que eu governo não rapaz, está pensando o quê?! Essa história de eso-exo entre dois homens é coisa do capeta! Mulher promíscua? 100 chibatadas! Aqui é tudo muito certinho. Mulher de um lado, homem do outro. Alcorão debaixo do braço, morte aos infiéis, viva Alá! E podemos achar inúmeros outros fatos que mostram nuances não menos radicais. Donde vem tanta sabedoria? Ora, das mesma fonte na qual tomam porre os céticos: de um raciocínio falho que elege premissas erradas.

O erro cretino é que ambos subsumem o esotérico no exotérico. Em bom cretinês, olham a roupa como se fosse o homem, a capa como se fosse o livro, o externo como se fosse o interno e demais jargões batidos que expressem a mesma convicção.

Você, quando vê Sebastian Faure tentando provar que Deus não existe com argumentos que falham miseravelmente e ainda ser “eudeusado” pelos ateístas, bem como um Mahmoud condenando gays à morte em nome de Deus, inevitavelmente se pensa: “imbecis”, e logo em seguida você deve se sentir um cretino por viver num mundo em que se briga por coisas assim. Que rumo tomar na sua cabeça oca quando os fanáticos estão dos dois lados, uns com Deus e outros sem Ele? Ser um agnóstico banana? Fundar uma seita anti-religião/ateísmo e chamar um monte de goiabas? Esquecer tudo isso e ir assistir as suas fitas gravadas de Chocolate com Pimenta do Vale a Pena Ver de Novo? (afinal, aqui no Brasil você ainda pode ser a frutinha que quiser).

Certamente que não. Vemos agora que o problema todo desse mundo muito-muito-louco não é o esoterismo. Está mais do que certo que Luis Gasparetto, João Bidú, Mônica Bonfiglio e Walter Mercado são armas de destruição neural em massa, mas não é desse “esoterismo” que eu estou falando. Se o mundo fosse mais esotérico, no sentido puro da palavra, talvez fosse muito melhor. Fato é que não tentamos isso ainda. Afinal, quando os céticos malucos, baseados no “fator Deus”, afirmam que religião é bobagem, estão falando de exoterismo. Quando o presidente do Irã diz que gay é coisa do marvado, está falando de exoterismo também. E quer saber? Creio que Saramago, ateu convicto, se apercebeu disso. Bem no fim do texto, diz o velhote que “se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar”. Diz também para que desconfiemos do fator Deus, esse inimigo do espírito humano. Céticos e religiosos acreditam discutir o ta esô, o essencial, mas enganam-se. Perdem-se ao discutir as coisas de fora, e com isso põem tudo a perder. Saramago, à sua maneira, é que é verdadeiramente esotérico. Diz ele que todos têm olhos, mas nem todos podem ver. Lucidez é para poucos.

Dica literária: José Saramago – Ensaio Sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez

Conselho espiritual da semana: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara".


******Off Topics*********

Som da semana: Yoshida Brothers - Kodo (Hishou Version)


7 Comments:

Aurélio da Vogue said...

E olha que é proibido usar narcóticos!
DENARC, DENARC... ocês que não façam um bom trabalho, meninos... ai, ai, ai, viu!
Saramago é um fofo! Só o óculos dele é meio out!

Fëanor said...

a melhor explicação do que é Esotérico e Exotérico que eu já li...
deveria ser adotada por todos os intelectuais, esotéricos e afins.

eu poderia elogiar de muitas maneiras o texto tentando citar algum texto sobre o caminho do meio, entre outras coisas mas quer saber...

Foda-se

Esse mundo... esse mundo é muito louco.

Baron Delceur said...

"Um raciocínio falha quando elege premissas erradas"

Na verdade um raciocício pode ser perfeito mesmo partindo de premissas falsas. Nesse caso, ele seria apenas não verdadeiro.

ASSIM PROFETIZOU JOSÉ REINALDO

Ornitorrinco Mono Holandês said...

senhor "baron L.E.R de CU":
Falso e errado são dois termos distintos, com intenção e extensão distintas também, segundo o próprio zeh reinaldo. Um raciocínio falso pode ser perfeito se eleger premissas logicamente compatíveis, o mesmo vale para raciocínios autênticos. Há isso dá-se o nome de retórica...

Eu falei de premissas erradas, que terminam por impedir o encadeamento lógico do raciocínio...

admitindo a sua interpretação, ainda assim no meu texto o sentido se preservaria. Religiosos e céticos buscam uma "Verdade". Um raciocínio "perfeito mas não verdadeiro" concorda comigo quando eu digo que eles não atingem seus objetivos...

Baron Delceur said...

Em geral o termo errado é tomado como referenciável a outro elemento(s) ou normatividade(s). Seu texto dá a impressão de que o referencial é "verdade", portanto o termo "errado na aplicação prática se referiria ao reflexo da normatividade "verdade", o que faria com que seu significado último, ontologicamente, fosse, de fato, "falso".
Mas se sua expressão verbal geral referia-se realmente a premissas "que terminam por impedir o encadeamento lógico do raciocínio", então é isso mesmo que vc falou.

pati said...

legal... :-)

Missoshiro com Tofu said...

ZZzzzZzZzZzZzZzZzzz.....