Reza (use “conta” se você for cético ok?) a lenda que o homem começou a se afastar de Deus naquele dia fatídico, um dos primeiros, no qual aquele Adão e aquela Eva resolveram furtar uma maçã da Árvore do Conhecimento (dizem também que é a origem dos políticos e de outras criaturas afanadoras igualmente odiosas, mas esse causo corre por conta de Aurélio, Dr. Honoris Causa em assuntos político-fashion). Com o bucho cheio e um pé na bunda, o homem começava criar coragem para pensar per si.
É claro que é essa polaridade entre scientia e fide que se iniciara em Paraíso Celeste não deu-se tão precocemente no Mundinho Mundano (Floriano diria, metaforicamente, que não é como aquela tua vizinha, que tão cedo deu para todos, à exceção de você, é óbvio). Foi preciso um Cisma aqui, um Evolucionismo lá, um Materialismo here, um Ceticismo there para que chegássemos aos progressos do tempo presente. De modo que é lícito averbar que temos hoje mais ou menos definido o que é do campo da scientia e o que é do campo da fide.
Ao leitor assíduo do blog (and I WANT TO BELIEVE they exist!) deve parecer que este ornitorrinco tagarela está lá de novo a alfinetar extremistas céticos e religiosos. Piparote no lóbulo esquerdo e petelecos nos metacarpos, és o que mereces se me tens tão presumível assim! Esta não é minha missão! Quero tão somente bradar em gritos mudos uma ode de desgosto contra esse cúmulo absurdo!
Tá, exagerei no heroísmo e no lirismo. Nem é a epistemologia moderna o meu problema. Minha bronca mesmo é com essa necessidade de separar na vida dos sujeitos o que é ciência e o que é crença. Ou pelo menos fingir que essas duas coisas podem mesmo se separar. Vamos pegar um exemplo prático e atual e realizar algumas sinapses:
Pegue um juiz (na CNTP). Ponha-o para decidir sobre a legalização das pesquisas com células-tronco. Dê a ele o que existe de mais moderno em teoria do direito e as informações mais valiosas da ciência tem sobre o assunto. Será que com essas garantias você consegue assegurar uma decisão apartada das convicções pessoais do meritíssimo? Ou no final o que vai desequilibrar é a visão de mundo da autoridade em questão, conforme mais pro lado da religião ou da cientificidade ele estiver inclinado?
Tu, leitor esperto, já percebestes o epicentro da discussão. O movimento histórico que pretensiosamente buscou na razão uma certeza que dispensasse os dogmas da religião não atingiu seu objetivo. Ainda estamos tão desnudos quanto Adão e Eva, por mais cheia que esteja nossa sacola de maçãs. E não obstante, persistimos no erro de buscar na ciência uma episteme que não lá não existe. Tudo é doxa. Sua ou minha, minha ou sua. Se episteme houver (and I WANT TO BELIEVE there is one!), não há por aqui.
Ora, e se no final tudo é opinião, então por que não posso ser um cientista que joga búzios e ser respeitado pelas duas coisas? Ou um físico quântico freqüentador de mesas kardecistas e congressos internacionais? Ou um geneticista apaixonado pelas maluquices de Alester Crowley e pelas peripécias do dna? Deixa-me viver ó Monstro Sist arretado!
Resolução: no meu escritório (se um dia eu tiver um) terei sessenta tomos de Pontes de Miranda, cinco volumes de Modesto Carvalhosa, uma edição comentada do Bhagavad Gita e uma encadernação de luxo do Tao Te Ching. Os puristas? Prejudique-se! Morro de fome antes de ser coerente.
Dica literária da semana: Eu meio que extirpei literatura do tema essa semana, mas dentro do assunto fica a dica. Gostaria de sugerir qualquer livro de Guimarães ou Fernando Pessoa, dois sujeitos bem místicos que não estavam nem aí para as caras feias dos doutores.
Conselho espiritual da semana: Não deixe ninguém te dizer o que é episteme. Tente encontrá-la sozinho. (Mas se encontrar me avise por favor!)
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