segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Homenagem: Joe Zawinul, o celebrante da vida




Relembrando-se as origens de Josef Erich Zawinul, um garoto branco, nascido na cidade austríaca de Viena, vindo de uma família de classe média com alguma ascendência cigana, poucos, ou mais provavelmente, ninguém poderia adivinhar que esse garoto, cuja primeira educação musical foi encampada nas tradições ciganas e, posteriormente, em ensino clássico no Conservatório de Viena, viria a revolucionar não só um estilo musical de origem marcadamente negra, mas como também toda a música.

Seu primeiro contato marcante com a música foi ao ouvir um amigo de seu pai tocar acordeão. Josef e outras crianças se encantavam ao ouvi-lo, e isso criou uma fascinação de Zawinul pelo instrumento. Passou a tentar tocá-lo, sem muito sucesso no início, mas mesmo assim persistindo e melhorando, pois, como ele próprio mais tarde diria, se alegrou imensamente por descobrir algo que ele realmente gostava de fazer. Aprendeu mais vigorosamente músicas tradicionais austríacas, ciganas e húngaras no acordeão. Logo seu contato com a arte mostrou um profundo talento e sensibilidade para a música, o que o levaria a estudar piano clássico e composição no renomado Conservatório de Viena, muito por influência de seu avô, que exercia o papel de educador. Não que Josef gostasse muito disso – apesar da quase simbiose que geraria com o piano, não foi ele quem escolheu tal instrumento, mas sim seus professores, que além disso rigidamente o dirigiam para estudos de mestres clássicos, como Mozart e Bach. O apego de Zawinul, porém, era pela música popular, e o contraste entre a alegria que sentia ao tocar acordeão no círculo familiar e a rigidez do ensino nas instituições de ensino o levaram a considerar tanto a escola como o conservatório onde estudava deveras enfadonhos. Tocou em algumas bandas locais, seja de estúdio ou de apresentação, antes de emigrar em 1959 para os Estados Unidos, para estudar no Berklee College of Music. Pouco tempo passado lá, porém, e um dos seus professores confessou-lhe que ele já não tinha nada mais a aprender lá, tamanha sua técnica e ligação com o instrumento de cordas.

A ligação de Joe, como passou a ser conhecido após sua ida para a América, com a música era extrema, o que lhe trazia uma inquietude no sentido de curiosidade com a experimentação, não se fazendo de rogado em buscar novos rumos musicais para a música que fazia. A mudança para os EUA foi crucial nos rumos que sua vida artística levaria, pois de imediato após sua chegada envolveu-se com grandes músicos da cena do Jazz, participando, entre outros, dos grupos de Art Blakey e Maynard Ferguson, grupo este no qual conheceu um certo saxofonista com o qual formaria o núcleo de uma das mais formidáveis e revolucionárias bandas de todos os tempos. Esse saxofonista chamava-se Wayne Shorter.

Antes da epopéica era do Weather Report, Zawinul ainda se apresentaria ao lado do fenomenal Julian “Cannonball” Adderley e o mítico Miles Davis, participando da banda de Miles e participando com composições em discos como “In a Silent Way” e “Bitches Brew”, precursores do que viria ser chamado “jazz-fusion” ou simplesmente “fusion”, porque mesclava elementos do jazz, rock e rhythm’n’blues. Aliás, essa é uma denominação profundamente lamentável, cuja única utilidade de servir como um método de catálogo de obras musicais que dificilmente se encaixam em outros estilos com traços mais identificáveis, apesar dessas produções do dito “fusion” variarem incrivelmente entre si quanto aos matizes gerais de seu som.


Zawinul integrando o Cannonball Adderley Sextet, "Work Song"

Joe, aliás, ao lado de outros monstros musicais como Chick Corea e Herbie Hancock foi um dos primeiros a utilizar de modo virtuosístico teclados e pianos elétricos. Zawinul, aliás, era também conhecido por tocar teclados “invertidos”, com a gravidade das notas subindo da direita para esquerda.

Como dito anteriormente, no entanto, o momento em que mais o mundo foi abençoado com a maestria musical de Joe foi durante os anos do Weather Report, um grupo que criaria rumos inexplorados para o jazz e ficaria conhecido como uma das maiores concentrações de virtuosismo musical do século XX. A banda foi fundanda em 1970 por Zawinul e o multi-saxofonista Wayne Shorter. No início, seu som não era muito divergente das experimentações “fusion” com as quais Miles brindara o mundo em alguns de seus últimos discos. Algo, porém, mudou com o terceiro disco do grupo. Talvez a saída do contra-baixista Miroslav Vitous, um músico formidável, mas cujo estilo não conseguia se encaixar com a visão dos fundadores, tenha aberto as portas para novos testes e a busca pela sonoridade que tanto Zawinul como Shorter buscavam. Foi a partir do disco "Mysterious Traveller", de 1974, que essa transformação transpareceu mais acintosamente, com a aplicação do estilo Shorter-Zawinul de improvisação e utilização de recursos de estúdio nas composições e gravações.

Weather Report, "Birdland"

Como diria Robert Hurwitz, em prefácio original para o LP Tale Spinnin’, “ the music of Weather Report has always been buit upon the fundation of details, on te smallest touches, on those equisite moments in which all of the forces of music – the melody, the rhythm, the harmony – como togeteher, the musical point. For Weather Report, harmony has meant more tha simply the relationships of different notes when they are put together to form chords – for Weather Report, the music itself has often been synonymous with harmony

Formação mais cultuada do Weather Report. Da esquerda para direita, Joe Zawinul, Jaco Pastorius, Alex Acuña, Wayne Shorter, Manolo Badrena

Após a era do Weather Report, Zawinul se embrenhou em diversos projetos solo, acabando por fundar mais uma banda formidável, o Zawinul Syndicate, em cujo som é notável a conjugação de elementos de diversas partes do mundo, para a criação de um estilo único. Também famosa pela grande quantidade de músicos jovens e veteranos que participaram de suas formações.

Vítima de uma forma rara de câncer de pele, Joe, para tristeza de incontáveis fãs, faleceu em 2007.


Zawinul Syndicate, "All About Simon"

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"Nossa música,", disse certa vez Zawinul, "é o reflexo do estado a que se chega como um ser humano".

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Como pronunciou Eric, filho do músico, "Joe Zawinul nasceu em 7 de julho de 1932 para o tempo terrestre e em 11 de setembro de 2007 para a eternidade" Que ele e sua música continuem a inspirar o espírito dos homens.


Bonus Track: Zaninul Syndicate, "Rooftops of Viena" e encerramento de show

3 Comments:

Aurélio da Vogue said...

Comemorou os 6 (seis) anos do WTC em grande estilo... com a morte...

Anônimo said...

Bom artigo, primeiro e penúltimo vídeo bom demais :-)

Lee S. Wayne said...

Concordo com vigor, o vídeo do Sextet é assustador, é o mais antigo e com melhor qualidade de gravação e som hahaha. Não achei nenhum vídeo decente da era Weather Report, coloquei o primeiro que tinha no youtube lol-mor. Do Syndicate achei bons também, Etienne Mbappe um dos melhores baixistas que já vi meu Deus.
Tinha um mais legal mas não dava para embedar no artigo, am cry.