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domingo, 25 de novembro de 2007

Sobre percepção e olhar...

Ao assistir o filme Mutum na semana passada, as primeiras coisas que me vieram à mente foram: o livro Ensaio Sobre a Cegueira, do mestre português José Saramago, e o documentário Janela da Alma, do diretor João Jardim. O livro trata de uma cegueira coletiva, em que apenas uma pessoa continuou a enxergar: a mulher do médico. Porém, a grande sacada está no fato de ter sido uma cegueira branca, e não uma cegueira negra. Explico: o branco é a conjugação de todas as cores, o preto é a ausência de cor, a escuridão. O que o romancista português criou foi uma metáfora da alienação, da massificação, do ritmo frenético que o mundo moderno impõe à nossa visão. Ou seja, nas palavras do escritor somos “Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”. O historiador Nicolau Sevcenko retrata essa aceleração da percepção visual imposta pelo mundo moderno em seu livro “Corrida para o século XXI”. Já o documentário do ótimo João Jardim mostra 19 pessoas com níveis diferentes de cegueira falando como se vêem, como vêem os outros e como percebem o mundo. Sendo uma belíssima obra sobre o olhar, e sobre a percepção do olhar.

Mas o que tudo isso tem a ver com o filme Mutum? O ótimo longa, dirigido pela diretora Sandra Kogut, apresenta a história de um menino (Tiago) que possui uma certa deficiência visual, sem que ninguém saiba desse problema, por esse motivo, é acusado de desastrado, desatencioso. Adaptação da magistral obra de Guimarães Rosa, Campo Geral, mais do que retratar a vida e as intempéries da vida de Miguilim (no filme, chamado de Tiago, coisa sobre a qual ainda falarei) e de sua família no sertão, o filme mostra um enorme cuidado ao tentar penetrar nas sensações e emoções dos personagens, em meio ao choro, ao riso, ao ódio e tantos outros sentimentos. Tudo isso de uma forma sutil, sem que o espectador seja forçado a senti-los, como ocorre na maioria das produções, principalmente norte americanas. Disso eu faço uma ligação com as obras citadas no começo: assim como elas falam sobre a percepção e a aceleração do sentido da visão realizada pelo mundo moderno, a diretora procura desacelerar nossos sentidos, propondo uma inversão da operação sensorial. Nos mostrando imagens de modo que possamos realmente enxergar, sem que a saturação de imagens do mundo atrapalhe. Outra ligação óbvia entre as obras é a deficiência visual de Tiago.

A diretora preferiu utilizar atores amadores, que habitavam regiões distintas do sertão mineiro, bem como preferiu utilizar os nomes verdadeiros dos atores, buscando um maior grau de naturalidade. Esta escolha me lembra o diretor dinamarquês Lars Von Trier, um dos precursores do movimento Dogma 95, que buscava fazer um cinema com muitos “defeitos”, tentando fugir dos padrões Hollywoodianos de cinema. Assim, com o intuito de trazer maior naturalidade nas atuações, Von Trier sempre buscou utilizar atores amadores em seus filmes. Outra referência ao diretor de Dogville é a tentativa, que o filme Mutum também busca, de explorar os sentimentos das personagens da forma mais intensa e clara. Enfatizando, portanto, mais do que efeitos visuais e perfeccionismos estéticos, a atuação das personagens. Não que o cenário não seja importante em Mutum, acredito que em muitos momentos temos a impressão de um cenário mais atuante que os próprios atores, mas a ênfase na atuação é patente em várias cenas.

Outro fato marcante no filme é a forte ligação do personagem com seu lugar de origem, e a necessidade de abandoná-lo para se ligar ao resto do mundo. Tanto assim que, no final do filme, a câmera, que acompanha o protagonista durante toda encenação, “fica” no sitio, enquanto Tiago vai embora com o médico. A cena final, que no livro de Guimarães Rosa mostra-se como uma das passagens mais belas da literatura, mostra Tiago (Miguilim) olhando pela primeira vez sua casa e seus familiares sem que a deficiência da visão o impeça de enxergá-los, antes de partir para sua nova vida. Vale copiar o trecho do livro:

“Olhava mais era para mãe. Drelina era bonita, a Chica, Tomezinho. Sorriu para Tio Terêz – “Tio Terêz, o senhor parece com o Pai...” Todos choravam. O doutor limpou a goela, disse: - “Não sei, quando eu tiro esses óculos, tão fortes, até meus olhos se enchem d’água...” Miguilim entregou a ele os óculos outra vez. Um soluçozinho veio. Dito e a Cuca Pingo-de-Ouro. E o Pai. Sempre alegre, Miguilim... Sempre alegre, Miguilim... Nem sabia o que era alegria e tristeza. Mãe o beijava. A Rosa punha-lhe dôces-de-leite nas algibeiras, para a viagem. Papaco-o-Paco falava, alto, falava.”

Por fim, vale recomendar “vivamente” a todos que assistam o filme. Poderia continuar muitas linhas falando sobre este filme, mas termino por aqui para não mais me estender.

Como é de praxe seguem minhas dicas “culturais”. E, iniciando hoje, vou começar a publicar uma piada de advogado por semana.

Dica de filme: Mutum (óbvio)

Dica de música: Radiohead - Jigsaw Falling Into Place (ótima banda, ótima música, ótimo cd. Sem mais...)

Piada de advogado da semana:

Pergunta: Sabe como se chamam mil advogados acorrentados no fundo do mar?

Resp: Um bom começo


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Now playing: Editors - Smokers Outside The Hospital Doors
via FoxyTunes


2 Comments:

Baron Delceur said...

Ótimo artigo (sobre cinema), sr. Tofu. Mas pelo amor de Deus não fale o final do filme ou do livro, caiçara, hahaha.
Aliás, adicione a classificação de assunto.

Aurélio da Vogue said...

Melhor ainda é ver o filme na companhia de Cauã Reymond... ah, a namoradinha dele tb estava lá, vai...