É bastante comum, principalmente em relação à história, o uso de suposições e “Se” para analisar o quão o mundo seria diferente se (é, vai ser um post recheado de “Se”) determinado fato ocorresse de maneira diversa. Lembro até de uma coluna na Superinteressante que buscava fazer essas análises históricas.
E é justamente em um desses “Se” que se baseia Complô contra a América, de Philip Roth. No livro, que transcorre durante o começo dos anos 40, ao invés da eleição para um terceiro mandato de Franklin Delano Roosevelt, chega à Casa Branca o heróico aviador americano Charles A. Lindbergh, que foi eleito basicamente pela defesa incondicional do isolacionismo americano e do não-ingresso na Segunda Guerra Mundial. Não bastasse isso, o presidente eleito tem ligações um tanto quanto suspeitas com o Führer, contando, inclusive, com uma condecoração nazista.
Em meio a tudo isso, Philip, um garoto judeu de oito anos, narra os acontecimentos subseqüentes à eleição, recheados de conflitos, familiares ou externos, sempre permeados pela presença do anti-semitismo, incorporado ao cotidiano americano de maneira clara após Lindbergh tornar-se presidente.
A escrita clara e precisa de Roth praticamente nos transporta para a pele do jovem Philip, transmitindo claramente a sensação contínua e crescente de medo, conforme a situação se agrava cada vez mais. O uso adequado de fatos reais corrobora em uma maior sensação de veracidade, o que torna ainda mais forte o livro.
Em tempos de mudança na América, não nos custa imaginar como seria o mundo se George W. Bush não tivesse sido eleito no controverso pleito de 2000, em que teve menos votos do que Al Gore. Será que ocorreria o ataque de 11 de setembro? Saddam ainda estaria vivo? Nem lembraríamos de Osama Bin Laden? Não ocorreria crise? O mundo seria melhor?
Como o “Se” só pode reescrever a história na literatura, ficamos na especulação. Mas a grande lição que fica é que o preconceito e o racismo geram somente o medo e o prejuízo de todos, sendo uma das piores manifestações humanas e que resultaram e resultam em um sem número de crueldades, seja contra judeus, seja contra negros, seja com qual povo for. Que a eleição de Obama não seja um parêntese, um lapso na história, mas sim um ponto de referência para um futuro que supere todo o tipo de desigualdade entre as pessoas.
Livro: Complô contra a América
Autor: Philip Roth
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 65,50
Avaliação: ótimo
5 Comments:
menino philip, com suas bermudinhas
Você e seus livros de fatos reais!
Muito legal cara, aposto que muitos americanos nem pensam em tudo isso que o cara fala no livro!
Com certeza ele não deve ter sido bestseller lá nas terras do Tio Sam, seria se fosse auto-ajuda...
Teria Lindbergh algum parentesco com o Lindenberg, o sequestrador?
Parentesco eu não sei, mas, segundo consta no Wikipédia, o Juninho (filho do Lindbergão) foi sequestrado. Coincidência? I don't think so...
Olha, podem não ser parentes, mas que o Lindbergh era amigão do Adolfinho e, por conseqüência, do Tinhoso, ah, isso era.
Post a Comment